Mundos Imaginários

Encontrei minha irmã, Sthefani, concentrada numa flor, tinha seis anos, investigava-a minuciosamente, olhando e tocando com cuidado. Bonecas, pratinhos e comidinhas de lado e ela perdida na flor. Fiquei-a observando um bom tempo. Já tem alguns anos e a mãe diz que ela não perdeu a mania de se absorver nas coisas. Espero que ela nunca perca, é um dom, que de certa forma toda criança tem, e que infelizmente vão perdendo na medida em que crescem e se acostumam com o mundo.

Ponte para Terabítia
Dias atrás assisti um bom filme, "Ponte para Terabítia", sobre um menino sonhador, sem amigos, que conhece Leslie, uma menina semelhante a ele, e juntos constroem um reino secreto encantado chamado Terabítia. Eu o recomendo.

É uma parábola de nossas infâncias, mundos e seres imaginários, antes de mudarmos o olhar, do encantado para o científico, onde a Terra antes imensa torna-se um planetinha ao redor do Sol e as nuvens, antes de algodão, volvem-se acumulações de H2O.

O meu entendimento da Queda original é assim. Nascemos no Éden, jardim mágico onde Deus nos visita na viração do dia, até que somos expulsos ao mundo real e sério, competitivo e alienante, cheio de dores, espinhos e abrolhos. E assim, existimos entre o anseio e o concreto, entre a saudade de coisas que não são e o estranhamento nas coisas que se é, entre os pés que nos unem ao barro e a consciência que paira nas nuvens. O que nos torna diferente dos animais é o sonho. Animal é corpo. Os humanos nos erguemos como seres conscientes da consciência e pagamos caro. Nosso dom também é dor, mas nossa dor também é dom.

Persegue-nos o sentimento de perplexidade ante o todo do qual sentimo-nos alheios e, ambiguamente, parte. Sentimento que nos fez elaborar as perguntas essenciais. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Que suscitaram filosofias e religiões, as artes e as utopias. E as respostas nos trouxeram mais perguntas num ciclo interminável. Na busca de satisfazer nossos anelos criamos cultura.

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta

(Cecília Meireles)

Entre anatomias e fisiologias da carreira que estudo, encontro-me diante da realidade de que somos mais que um amontoado de matéria. O pensar, o criar, o refletir e o sonhar são mais que meras abstrações ou distrações, são nossa vocação. E assim, somos obrigados a nos erguer das imediatices e frivolidades do dia-a-dia para deslumbrarmo-nos perante a constatação do grande mistério, desvendando os olhos para nos surpreender como crianças diante da flor, na certeza de que o mundo encantado, sagrado e eterno que se equilibra no sem-fim é este.

Abraços.

O post de hoje é da autoria de Evérton Vidal Azevedo do excelente blog Re-Novidade.
Visitem o blog dele, leiam, e assinem. Eu recomendo.

8 Comentários:

Valéria de Oliveira disse...

Oi Neto, este post é lindo. Acredito na pureza de uma criança, que o tempo pede a ela a malícia e o desprendimento desta inocencia é fato!

Coisas da vida... Saudades e muitas saudades é o que fica...

Bj

Éverton Vidal Azevedo disse...

Caro Neto, eu venho só repetir que é um prazer estar por aqui.

Um grande abraço!

Roberto Hyra disse...

Sempre existirá uma criança dentro de nós.

Fui lá e li os posts dele. É um rapaz bastante espirituoso, gostei de seu blog. Boa indicação, Neto! Já assinei os feeds do ReNovidade.

[]'s

Liza Manuelle disse...

Não conhecia este filme. Gosto de filmes com histórias envolvendo crianças, e falando sobre um futuro de sonhos. Assisti Harry Porter e amei. É claro que não deve ter muito a ver com o enredo desse, mas é um bom filme tambem. muito boa a explicação do rapaz sobre o tema. Vou assistir este "Ponte para Terabítia".

E assinei o blog :)

Bom FDS pra você! bjos

A Itinerante - Neiva disse...

Neto,

Este post é a minha cara. Maravilhoso! Já assisti a Ponte para Terabítia. Muito lindo, apesar de triste.

Parabéns Neto, por trazer-nos este presentaço!

Beijos

Du disse...

Poxa Vidal, eu já estive com esse filme nas mãos umas duas vezes pra alugar e acabei trocando por outro, como pude? hehehe Vou corrigir isto em breve, obrigada pela dica!
E achei tão bonito o teu texto que cheguei a twittar uma das últimas frases, depois você vê lá!

Parabéns, como sempre!

Beijos!

Daniel disse...

Em que esquina da vida deixamos esse mundo imaginário e encantar e entramos no mundo "dos adultos", cheios de problemas, dúvidas e vacilações. Um abraço;

http://contesta-acao.blogspot.com

Pâmela Rodrigues disse...

Fiquei verdadeiramente encantada e claro que vou visitar o blog que recomendou.
Beijos querido.
Sobre a camisa. Na verdade desejo há tempos ter uma camisa com a bandeira de Pernambuco, daquelas pequeninas pra menina.
SE você tiver como comprar uma pra mim. Por e-mail me dê o número da conta pra eu enviar o valor da camisa e do correio.
Beijossssss

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